Mapa de risco x liberações: medidas em SC vão na contramão do cenário da Covid-19

Se não fosse por uma região, o mapa que mede o cenário da Covid-19 em Santa Catarina estaria completamente pintado de vermelho. Atualizada na sexta-feira (18), a matriz de risco potencial para a doença mostra 15 das 16 regiões em nível gravíssimo (vermelho) da pandemia.

Somente a região de Xanxerê está classificada no risco grave (laranja). Nenhuma região se encontra no nível alto (amarelo) ou moderado (azul).

A matriz de risco passou por mudanças na metodologia de monitoramento. Com isso, a atualização foi publicada na sexta, nove dias depois da última divulgação.


De baladas a parques aquáticos: mais liberações e flexibilizações

Em contrapartida ao que apresenta o mapa, novas flexibilizações estão sendo colocadas em prática pelo governo do Estado.

As mais recentes dizem respeito à liberação de casas noturnas, eventos sociais, cinemas, teatros, parques temáticos e transporte coletivo na temporada de verão em Santa Catarina.

Também ficou decidido que hotéis e pousadas poderão operar com ocupação integral. Todas as medidas começam a valer a partir desta segunda-feira (21).

Para os especialistas em Saúde Pública entrevistados pelo ND+, a decisão tomada pelo Executivo vai na contramão do cenário da Covid-19 em Santa Catarina.

Em nota, a SES (Secretaria de Estado da Saúde) disse que a medida levou em consideração uma variada gama de situações pelas quais passa o Estado no momento.

Diante disso, optou-se “por realizar um regramento das atividades, tanto econômicas quanto de lazer, com o intuito de buscar um equilíbrio e privilegiar a legalidade e a segurança da população.”


O que leva em conta a matriz de risco?

A avaliação da matriz de risco leva em consideração quatro dimensões preconizadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde): evento sentinela, transmissibilidade, monitoramento e capacidade de atenção.

Cada dimensão mede itens relacionados à Covid-19:

  • Evento sentinela: mede a mortalidade da Covid-19 e o comportamento da pandemia;

  • Transmissibilidade: a variação no número de confirmação positiva e casos infectantes;

  • Monitoramento: o percentual de positividade de exames RT-PCR do Lacen (Laboratório Central);

  • Capacidade de atenção: ocupação dos leitos de UTI.

Infectantes: casos ativos por “nowcasting”

Essas medidas são feitas a partir de indicadores. O indicador “infectividade” da dimensão transmissibilidade media os casos ativos da Covid-19 a cada 100 mil habitantes.

Agora, o número de casos ativos passou a ser corrigido por um cálculo matemático mais avançado e fidedigno, chamado nowcasting. Os casos “ativos” passarão a ser denominados casos “infectantes”.

O nowcasting corrige o atraso no sistema de notificação da Covid-19, decorrente da demora no processamento dos exames diagnósticos.

Para Josimari Telino de Lacerda, professora do Departamento de Saúde Pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), essa alteração é importante para retratar mais fielmente a realidade dos casos.

A professora, que também é membro da iniciativa independente Observatório Covid-19 BR, já havia mencionado a necessidade de se ajustar as estimativas de todos os cálculos relacionados à doença em entrevista ao ND+ no dia 6 de novembro.

“Corrigir os últimos dias e estimar os números reais dos casos é possível porque, apesar de ser uma doença nova, a forma como se manifesta já é conhecida. Sabe-se o tempo médio que a doença leva entre o sintoma e o registro”, explicou a professora à época.

Apesar de considerar positiva a alteração, ela destaca que manter o indicador “regressão” – que mede a variação de casos semanais – junto com o indicador “infectividade”, acaba amenizando a realidade.

Isso porque o indicador regressão “puxa para baixo” o segundo item. O ideal, segundo ela, seria optar somente pelo indicador infectividade.


Aglomerações em grupos intrafamiliares

Houve alteração também na dimensão monitoramento, que antes media os casos investigados e o inquérito de síndrome gripal na comunidade.

Agora, passa a medir o percentual de positividade de exames RT-PCR do Lacen (Laboratório Central). Ou seja, a quantidade de exames que atestaram positivo para Covid-19.

De acordo com o Coes (Centro de Operações de Emergência em Saúde) da Secretaria de Estado da Saúde, o objetivo foi adequar-se ao novo perfil epidemiológico identificado no Estado.

Para o Coes, muitos casos estão sendo frutos de aglomerações em grupos intrafamiliares. A dimensão monitoramento apresentou piora agressiva com relação ao mapa anterior.

Antes, todas as regiões estavam no nível grave e, de acordo com o Centro de Operações, isso demonstrava a necessidade de aprimorar a investigação de contatos de casos e a vigilância ativa por meio de qualificação da realização do inquérito de síndrome gripal na comunidade.

Hoje, 12 regiões estão em nível de risco gravíssimo e duas no nível grave. A exceção fica por conta do Extremo-Oeste, que está no nível alto (amarelo).

A epidemiologista do Coes, Maria Cristina Willemann, descreveu que a dimensão do monitoramento como estava programada gerava uma distorção no indicador do efeito de desenho da síndrome gripal.

O indicador sensibilidade, assim, passou a ser medido por confirmação laboratorial dos PCR, não mais utilizando dados que necessitam de informação individual no e-SUS.

“Isto vai provavelmente reduzir possíveis erros provindos de instabilidade no sistema de informação ou diminuição da capacidade de digitação pelos municípios”, informou Maria Cristina.


Medida correta, parâmetro alto

Para a professora Josimari, a alteração na medida do monitoramento também foi positiva. No entanto, ela argumenta que os parâmetros estabelecidos para definir o estado grave ou gravíssimo são muito altos.

A matriz de risco coloca que o nível grave é atingido quando a taxa percentual do monitoramento atinge entre 20% e 30%. O nível gravíssimo é acima de 30%. Contudo, de acordo com a especialista, a OMS indica que um percentual de 5% na taxa de positividade já é preocupante.

Ela explica que a Europa adota como ponto de corte um nível de 4%. Isto é, uma taxa acima de 4% já é considerada alta. Sendo assim, o ponto de corte adotado pelo Estado para definir a gravidade da situação seria muito alto.


Alerta para ocupação de UTIs em SC

A dimensão capacidade de atenção mede a ocupação dos leitos de UTI no Estado. Todas as regiões encontram-se em alerta máximo para esse quesito, isto é, no nível gravíssimo.

Dimensão capacidade de atenção – Foto: Coes/SES/Divulgação/ND

Esse item também sofreu alteração nos parâmetros. O nível grave agora é classificado quando a taxa está entre 70% e 80% e o nível gravíssimo é acima de 80%. Antes, o nível grave era entre 80% e 90% e o nível gravíssimo, só acima de 90%.

O Coes destaca que há necessidade de cancelar a realização de cirurgias eletivas, colocar em funcionamento todos os leitos disponíveis e ampliar ações de identificação de manejo precoce de caso.

Além disso, deve-se investir em restrição de contato entre as pessoas para que haja redução da ocupação em médio prazo.


Óbitos desatualizados

A dimensão evento sentinela mede a mortalidade da Covid-19 no Estado. Josimari revela que o uso da ferramenta nowcasting nesse quesito é essencial para que se tenha dados que correspondam mais fielmente à realidade.

Isso porque o óbito necessita de maior investigação. O registro das mortes que aconteceram em uma semana está, em média, defasado em 60%. Testes realizados após a morte também costumam ser mais problemáticos.

Continuar medindo a taxa desses óbitos sem a devida correção, portanto, é olhar para somente 40% da realidade.

Sendo assim, o real cenário das mortes em Santa Catarina tende a ser pior do que o apresentado na matriz de risco, que mostra nove regiões em nível gravíssimo, cinco regiões em nível grave e duas em alto para o quesito evento sentinela.

“Com todo esse atraso, não é possível apresentar dados brutos em uma matriz sem fazer cálculos que ajustem essa defasagem”, comenta Josimari.


Liberações vão na contramão dos dados da matriz

De um lado tem-se 15 regiões em nível gravíssimo para a Covid-19. Do outro, medidas estão sendo flexibilizadas com a chegada do verão.

De acordo com a especialista Josimari, a matriz de risco sofreu bons ajustes, mas ainda apresenta problemas. E mesmo com esses problemas, mostra o Estado majoritariamente pintado de vermelho.

“A situação é gravíssima e, ainda assim, a decisão é abrir tudo. Estamos numa situação muito ruim e caminhamos na contramão da história, da ciência e da experiência de outros países. O cenário não é nada promissor”, alerta.

O professor de Imunologia da UFSC, Daniel Mansur, também levanta a questão da “mensagem dupla”. Ele diz que se vive o pior momento da pandemia, mas ao mesmo tempo se flexibilizam medidas.

“Tal conduta pode gerar confusão na população. Se a situação está gravíssima, por que atividades estão sendo liberadas?”, questiona.

“O que pode acontecer é essa sensação do mesmo órgão emitir duas informações que parecem contrastantes. Mas isso não exime a responsabilidade do cidadão de estar ciente em assumir o risco do que está fazendo. Se você vai num restaurante e vê que está cheio, o ideal é que não fique no lugar. Não é porque estão liberando que a situação está ok”, argumenta.

Determinar o fechamento de serviços não essenciais é a saída para frear o avanço dos casos, de acordo com a professora Eleonora D’Orsi, que também atua no Departamento de Saúde Pública da UFSC.

Segundo ela, países da Europa em situações menos graves que a de Santa Catarina já decretaram novos lockdowns. Para professora, a responsabilidade pelo quadro grave da epidemia é do governo estadual e municipal, que têm o poder de determinar maiores restrições.

Sendo assim, D’Orsi defende que os serviços considerados não essenciais deveriam ser fechados, assim como foi feito no mês de março.

“Todas as liberações que estão acontecendo vão implicar no aumento do número de casos, de mortes e no colapso do sistema de saúde. Elas facilitam a circulação de pessoas e a Covid-19 é uma doença que se transmite entre as pessoas. A responsabilidade de evitar esse fluxo é da gestão pública estadual e municipal”, conclui.


MP-SC pede medidas mais efetivas

As seguidas medidas de flexibilização anunciadas pelo governo do Estado fizeram com que o Ministério Público de Santa Catarina entrasse na Justiça.

Na quinta-feira (17), o MP-SC entrou com uma ação civil pública para que o Estado respeite as recomendações de seus órgãos técnicos e adote medidas mais efetivas para a prevenção e o combate à pandemia do coronavírus.

Segundo o promotor Luciano Naschenweng, titular da 33ª Promotoria de Justiça da Capital, as decisões contrariam as recomendações do Centro de Operações e Emergências em Saúde, o órgão central de coordenação técnica das ações contra o coronavírus.


Governo do Estado diz ‘buscar equilíbrio’

O Governo de Santa Catarina, por meio da SES, publicou uma nota com esclarecimentos quanto às recentes medidas de regramento de atividades para a temporada de verão no Estado.

Quanto ao decreto nº 1027, que passa a valer a partir desta segunda-feira (21), a SES disse que o início da temporada de verão levará à chegada de centenas de milhares de turistas em solo catarinense e que isso é “uma realidade inexorável, para a qual não se pode fechar os olhos.”

Diante disso, o Executivo informou que optou por realizar um regramento das atividades, com o intuito de buscar um equilíbrio e privilegiar a legalidade e a segurança da população.

Confira trecho da nota:

O longo período pandêmico tem gerado inquietações no seio da sociedade catarinense, que, em muitos casos, beiraram a desobediência civil.

Ao mesmo tempo em que luta para garantir que todos os catarinenses tenham acesso a tratamento em caso de necessidade, por meio de uma ampliação expressiva dos leitos de UTI disponíveis, o Governo de Santa Catarina está atento ao sentimento dos catarinenses e à luta por um equilíbrio entre o enfrentamento da pandemia e o bem-estar sócio-econômico.

Em um momento como o atual, deve haver um tratamento igualitário entre todos os setores, privilegiando a legalidade em detrimento da clandestinidade. Tal conceito embasou algumas das medidas, tais como a permissão de ocupação de 100% dos hotéis, a liberação de eventos sociais, com restrição de público.

Para atravessarmos as dificuldades, nunca outrora vividas nesta geração, todos precisam dar as mãos.


Fonte: ND Mais.